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Quem se define, se define.
Por Bárbara S. de P. | 14/03/2011

Inúmeras vezes, presenciei “artistas” (me permito o direito às aspas) se perderem ao esmiuçar todos os aspectos de seu traço ou proposta e, assim que percebem que seu trabalho transparece um pouco mais de si mesmos do que gostariam, fazem questão de frisar que não consideram sua obra como “arte gay”, “arte negra” ou qualquer “arte-minoria”. Já adianto que não venham me falar que “quem se define, se limita”, porque arte não é perfil de orkut. Quem se define, assume uma posição – o que, em grande parte dos casos, pode ser realmente louvável. Para refutar de vez esse clichê indigno de ser clichê, vou apelar para a mesma metafísica capenga (pleonasmo?): quem não se define, acaba por se admitir tão vago quanto essa frase.

Não é preciso refletir por muito tempo a respeito para se chegar à teoria de que essa recusa muito tem a ver com vergonha. É bem por aí. Salvo casos muito específicos e raros, essa negação vem acompanhada da velha justificativa “ah, não quero ficar militando, aborrecendo as pessoas com essa chatice”, ou a versão mais ingênua “não preciso ficar me afirmando só porque sou assim”. Espantoso não perceberem que assim admitem a origem de seu incômodo: lembrar que pertencem a tal grupo é algo que aborrece.

Diante de tanto “corpo fora”, vamos nos lembrar por um instante do papel transformador da arte. Ou de seu papel de mensageira dos anseios da humanidade. Ou do seu papel de expressão máxima e desavergonhada do quer que seja a tal alma. Não faltam atributos para demonstrar que a arte serve perfeitamente ao combate daquilo que faz com que esses “artistas” amarelem o sorriso e se justifiquem para o mundo. Isso quer dizer que todo artista é obrigado a escolher uma causa-guia? Não. É possível, por exemplo, fazer arte respeitavelmente abordando o homoerotismo sem necessariamente fazer arte gay. Isso não desmerece ninguém. O que desmerece é a covardia diante da essência do próprio trabalho.

A obra foge do nosso alcance. Isso ocorre justamente porque algo de nós fala através dela, e dificilmente podemos escolher o que será esse algo. Obras são como filhos. É inútil criá-las apenas com o objetivo de que realizem exatamente nossas vontades e planos. É preciso respeitá-la na sua individualidade. A obra será o que é. Provavelmente o seja por ter nascido assim, ou talvez seja por influência do meio, mas o fato é que o melhor a fazer (em nome da sua paz de espírito) é sair do seu estado de negação e aceitá-la como ela é.

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